A morte de uma criança representa uma ruptura para os pais. Uma dor que não se esgota. Diante disso, qualquer palavra precisa vir com cuidado. E qualquer decisão, com ainda mais responsabilidade.

No caso do menino Benício, o que se tem até aqui é uma tragédia associada a um erro com múltiplas responsabilidades no atendimento. Um erro grave, quase coletivo, que precisa ser apurado com rigor. Isso é indiscutível. Mas, ao redor desse fato central, começaram a surgir outros elementos: mensagens, comportamentos, tentativas de justificar o ocorrido. Tudo isso pode ter relevância. Mas não muda o que aconteceu no momento dos fatos.
Há um risco quando se tenta juntar essas peças para construir uma ideia de intenção. Como se o que veio depois pudesse explicar, por si só, o que se passou antes. Não é assim que as coisas funcionam.
A tentativa de esconder uma falha ou de reconstruir uma versão não transforma automaticamente um erro em vontade de causar dano.
A circunstância de a médica ter usado o celular — pouco importando o conteúdo da conversa — não altera o que se passou e tampouco pode ser creditada como elemento de construção de uma conduta indiferente à vida. Pode, no máximo, sugerir descuido, algo que precisa ser considerado. Mas não responde, sozinho, à pergunta essencial sobre o que se passava naquele momento.
Quando se perde essa medida, o debate deixa de ser sobre o fato e passa a ser sobre a narrativa. E narrativas, especialmente em casos que envolvem comoção, tendem a buscar respostas rápidas — ainda que não sejam as mais corretas.
Nada disso diminui a gravidade do que aconteceu. Ao contrário. É justamente porque a perda é tão grande que o cuidado precisa ser maior.

Não se faz justiça apressando conclusões nem forçando explicações que ainda não se sustentam.
O sistema de justiça deve separar o joio do trigo. Olhar para o fato como ele é, sem deixar que tudo o que veio depois embaralhe aquilo que realmente precisa ser entendido. Porque, quando essa diferença se perde, não é só um caso que se complica. É a própria ideia de justiça que começa a se afastar da realidade.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



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