Shows de artistas no interior do Amazonas vêm sendo suspensos por um crescente ativismo judicial. Por trás das medidas, intervenções do Ministério Público que empurram juízes (ou conselheiros do TCE) a tomar atitudes que, na intenção de preservar o dinheiro público, acabam privando a população de atividades econômicas cíclicas, que só ocorrem anualmente durante festivais previamente programados.
A alegação de que os municípios não investiram em saneamento básico e que o IDH (índice de desenvolvimento humano), i ndicador de educação, longevidade e renda tem caído, não sustenta a alegação de que o dinheiro pago aos artistas é absurdo e representa desperdício. Primeiro, que o valor de um artista não se mede pela opinião do Judiciário ou do MP, calcada em cima de índices que exigem uma interpretação qualificada. O artista vende a arte, que não pode ser medida por essa régua torta do Judiciário e do TCE. É um componente da expectativa que ele gera e da empatia que provoca.
O caso da punição do prefeito Raylan Barroso Alencar pela contratação de Joelma e da banda Pisadinha pela prefeitura de Eirunepé é um sintoma de uma crescente invasão do Judiciário ou do TCE em atividades do Executivo.
Que gastos devem ser monitorados, checados os contratos e controlada a administração do dinheiro público, é uma coisa. Outra é interferir em contratações de artistas que vão gerar, na ponta, renda para quem monta sua barraca e vende seu churrasco. E não é preciso repetir que arte é cultura, independentemente de seu conteúdo e da preferência de juízes, promotores e conselheiros do TCE.
Ademais, o deslocamento de uma banda para Manaus e o interior do Amazonas demanda um alto investimento. Isso deve ser levado em conta.
Quanto a questão da aplicação de recursos em educação, saúde e saneamento é problema de política pública, e quem tem legitimidade para aplicá-la é o Executivo em sintonia com o Legislativo e setores representativos da sociedade. Se ambos falham, os órgãos de controle devem atuar, mas sem confundir esse controle com poder de policia, tão nocivo, e que apenas adiciona mais um ingrediente a esse clamor dos brasileiros por mudanças radicais na estrutura do Judiciário e do Ministério Público. Afinal, juizes, promotores e conselheiros dos tribunais de Contas e até dos tribunais superiores meteram na cabeça que são deuses. Não são.
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Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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