Pode ter sido um tiro no pé - como parece ser consenso da imprensa e do mercado - o episódio resultante da prisão, busca e apreensão na casa do ex-deputado Roberto Jefferson, que atirou nos federais e provocou de imediato a desvalorização do real frente ao dólar e a queda de ações de empresas como a Petrobras na Bolsa de Valores.
A aposta dos investidores em Bolsonaro sempre foi altíssima e a interpretação do episódio foi a de que abalaria sua performance eleitoral. Mas alguma coisa ficou no ar: de que a resistência do ex-deputado à prisão, jogando granadas e atirando contra os policiais, foi uma perversa combinação com algum ser de outro planeta.
Primeiro, a operação vazou. Jefferson tinha um discurso pronto e sabia da extensão de seu ato. Segundo, falou o que quis utilizando uma rede social que poderia ter sido acionada a bloquear de pronto uma transmissão que parou o Brasil. Jefferson utilizou o tempo que quis e disse o que quis.
Ninguém melhor do que Jefferson para desestabilizar o sistema, com suas frases de efeito. Desde 2021 ele vinha dizendo o que Bolsonaro poderia e deveria fazer. Isso publicamente. Entre seus conselhos, um que ele mesmo resolveu colocar em prática no dia de ontem:
“(…) O poder começa no cano do fuzil. O poder se garante no cano do fuzil. (…) Por onde começa o poder? Pelo cano do fuzil. Quem garante o poder? O cano do fuzil”.
Foi o que fez no domingo. Utilizou o fuzil. Se impacta na eleição do próximo domingo, afastando eleitores de Bolsonaro, é difícil dizer.
Pelo apoio velado que bolsonaristas deram a Jefferson, a aposta (deles) foi a de que esse tipo de ação, neurótica e criminosa, tem o efeito de mobilizar eleitores que, embora não se assumam de direita nem de esquerda, fazem restrições a forma precária e autoritária, em muitos casos, com que o sistema de justiça funciona no Brasil.
Teses de que a bala resolve e não as leis têm sido disseminadas nos aplicativos de celular pelo chamado “gabinete do ódio”. O teste foi no domingo. De certa forma funcionou, ao menos para os grupos que defendem esse tipo de comportamento.
Jefferson não parece ter sofrido nenhum surto. Foi estimulado. É parte de um time disposto a ganhar no grito.


Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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