Lula cometeu vários erros, mas a irritação com Bolsonaro foi o pior deles.
Lula não aprendeu com o debate do primeiro turno e caiu na noite desta sexta-feira nas provocações de Bolsonaro. Primeiro, o presidente é o que é: cínico, frio, mas não é bronco, como muitos dizem. É esperto e usa sua natural frieza para sustentar teses inverossímeis e desconstruir o discurso do adversário. É aquela questão de colocar meias verdades para se sobrepor aos fatos. Bolsonaro faz esse papel com maestria.
Segundo, Lula, de novo, nos melhores momentos, não falou para seus eleitores, mas para a classe média, que vota em Bolsonaro. Meio Ambiente, por exemplo, não interessa aos mais pobres. Quando falou para seus eleitores - aumento de salário mínimo em até 70 por cento em seus dois governos - empurrou o eleitor indeciso, mas que emprega, para Bolsonaro. Lula não entendeu que o aumento do salário mínimo em níveis considerados altos, penaliza a classe média - a dona de casa que paga uma empregada, o pequeno comerciante que emprega cinco trabalhadores e só vai poder pagar dois.
Lula caiu na armadilha de Bolsonaro ao abordar a questão fundiária e admitir que no seu governo “terra improdutiva” será ocupada. A definição de terra improdutiva é complexa, não envolve apenas grandes propriedades sem atividade econômica, mas a qualidade do solo.
Outro momento bom de Lula foi quando abordou a questão da saúde, mas de novo escorregou. A defesa do Programa Mais Médico e dos médicos cubanos tira voto. Os médicos brasileiros tiveram nesse período salários reduzidos (a questão da oferta e da procura), uma competição desleal imposta pelo governo ao inundar o mercado brasileiro com médicos trazidos de Cuba.
Lula cometeu vários erros, mas a irritação com Bolsonaro foi o pior deles.
O debate, de certa forma, foi ruim. A própria sistemática adotada pela Globo foi falha. Por exemplo, se os candidatos tinham tempo definido para responder questões levantadas, não caberia o direito de resposta, pois supostas ofensas eram imediatamente rebatidas pelo ofendido.
O debate desta sexta-feira pode não influenciar o eleitor, mas se influenciar, Bolsonaro leva uns pontinhos para as urnas.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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