Todo mundo sonha com um gatinho em casa. Em tempos de calor, quem resiste a um ar-condicionado ligado da sala à cozinha? O problema é que a concessionária ouve ruídos, os vizinhos denunciam, os falsos amigos - que amigos ? - só pensam em preservar seus próprios gatos. Quando anoitece, os miados crescem, o sistema entra em colapso, a concessionária chia e os gatos acabam sendo apanhados. Manaus é um inferno no verão. Não dá nem para fazer amor sem o ar-condicionado ligado, ou o ventilador cortando o vento, que mexe os lençóis e abafa os gemidos que já não se sabe se são de prazer ou desespero. O fato é que a energia aumentou e a conta não cabe no orçamento da maioria das famílias.
Desse desespero se aproveitam alguns políticos e o tema vira mote de campanha eleitoral. A judicialização e a politização da instalação dos medidores anti-gatos soa como um sopro de esperança. Cai uma decisão judicial, cai a segunda, cai a terceira e a quarta mantém acesa a chama de uma cidade que não quer os medidores aéreos. E com razão. Mas o que os políticos prometem é fumaça.
O senador Eduardo Braga, autor das ações, não vai entregar o que está prometendo. Primeiro porque a decisão da desembargadora Maria do Socorro Guedes, suspendendo a instalação dos medidores, é precaríssima. Segundo, essa é uma questão que está numa instância superior e não será resolvida pela Justiça do Amazonas.
O que o senador pretende - e não deixa de ser legítimo que o faça - é conquistar votos em cima de uma ideia que ficará como ideia, porque quem regulamenta o setor de energia é uma agência criada para “fiscalizar a produção, a transmissão, a distribuição e a comercialização de energia elétrica”. E tem suas normas - uma delas prevê a instalação dos medidores.
Não deixemos de reconhecer que Braga é obsessivo e um batalhador. Mas essa é uma luta que os consumidores de energia já perderam e ele sabe.
O que não deixa de ser uma pena. A luta do senador, entretanto, deveria ser no sentido de encontrar meios de oferecer à população energia barata, criar mecanismos para a formação de uma nova matriz energética, onde todos ganhem - empresas, consumidores e governo. Mas prefere vender a ilusão de que pode conter a tempestade com seu braço ou sua vontade.
O senador carrega um pecado do qual tenta se redimir agora: a bandeira vermelha, criada durante sua gestão no Ministério das Minas e Energia. Necessária naquela ocasião, mas poderia ter usado a influência que tinha junto à Aneel para a exclusão do Amazonas. E não o fez. O resultado está aí.


Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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