Um menino deslumbrado com a vista da cidade, um cheiro de diesel no ar da madrugada, o ronco de um motor que deslizava lentamente sobre um rio de cor escura. Depois, um fusca trazendo nossos trapos para um novo mundo - inesperadamente cruel. Da esperança que durou toda a viagem no rosto de meus pais, agora, na nova casa, num beco chamado “Paz”, no Educandos, via dúvidas e medo. Ao redor deles, oito filhos e uma mesa vazia.
Às vezes me pergunto como cheguei até aqui. Como meus irmãos chegaram até aqui? Como vencemos os abismos abertos para nos tragar e como, com os pés sangrando, percorremos estradas de pedras sem recuar? E a resposta é simples e cruel. Nossos pais e o amor deles.
Simples porque é de fácil resposta e cruel porque eles se sacrificaram para nos alimentar e nos proteger. E cruel ainda porque, quando chegou a hora de retribuir o que eles fizeram, metade de nós se separou, partiu em busca de novos sonhos, de construir nova família…
Esse passado, que é tão presente em minha vida, deságua da memória e inunda esse mundo que construi com as sementes que eles colocaram nas minhas mãos, ao me ensinarem a olhar para frente, levantar quando cair e olhar o outro como reflexo de mim mesmo. E confesso que nesse aspecto - de olhar os outros como a mim mesmo - tenho falhado.
Nunca esqueci aquele prato com farofa de um ovo para 10 pessoas. E minha mãe e meu pai olhando apenas, sem comer…
E porque coloco isso para você que perde tempo lendo o que escrevo diariamente nesta coluna?Porque hoje, 11 de novembro, faço aniversário.
É o dia de olhar para trás e lembrar deles com saudade e respeito. Porque eles pavimentaram com suor e lágrimas os caminhos que percorri. Porque tive nessa aventura de tantos anos muitas derrotas, mas também venci, caí e consegui levantar. Chorei e sorri. Aprendi o que eles me ensinaram e sou grato a eles.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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