Pouca gente vai sentir saudades do ano que está terminando. Encerra-se um ciclo autoritário, mas não a sangria provocada na alma do brasileiro. A poucos dias de encerrar o ano, não se vê nada capaz de colar os dois lados de um País que literalmente rachou.
Não será o fim do radicalismo que tomou conta da sociedade brasileira e dividiu o Brasil ao meio. Nem o novo ano será de estabilidade politica, econômica ou social. Mas de incerteza, que deve durar o tempo da tolerância, que parece cada vez mais escasso.
Não se vê nas propostas do novo governo ou do governo que assume em 1o de janeiro um gesto capaz de unir esses dois brasis e apagar o fogo da intolerância.
Lula, o presidente eleito, só pensa em explodir o teto dos gastos públicos para “auxiliar os pobres”, mas não diz de onde sairá o dinheiro, enquanto economistas advertem que essa “derrubada” do teto vai provocar mais inflação, mais desvalorização do Real, mais desemprego e, como consequência, mais fome e mais miseráveis.
O País que Lula vê está 20 anos no passado. Não é o Brasil real - com uma população maior e mais questionadora. Um Brasil menos tolerante e, portanto, menos pacífico. Um Brasil que tem voz sem precisar dos favores da velha mídia. Um País com mais olhos, mais dedos apontados para erros ou omissões. E um País que, infelizmente, quer continuar armado.
A simples derrubada dos decretos de Bolsonaro que facilitam a aquisição de armas pela população, além do confisco de armamento que o governo considerar perigoso nas mãos dos brasileiros, cindirá ainda mais o País.
Nunca mais haverá, por parte dos brasileiros, a devolução voluntária de armas, como ocorreu em 2003, porque a confiança no poder público como tutor da segurança dos cidadãos esgotou-se. Então, o que fazer ? Dialogar, obter consensos, conjugar interesses.
Mas Lula parece repetir Bolsonaro numa questão básica em uma democracia: não parece disposto a dialogar, a discutir com a sociedade, a buscar caminhos que não apenas aqueles apontados pelos petistas.
A direita, que nasceu da tentativa de colocar fim à corrupção no País - uma audácia de um juiz e procuradores não tolerada pelos tribunais - está aí e veio para ficar.
Lula precisa entender que está na raiz do surgimento da direita, germinada das falhas de seus governos, e que vai colocar o dedo em feridas que ainda não foram cicatrizadas.
O Brasil mudou e Lula também precisa mudar. Ou tudo será como antes. Ou pior.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

Aviso