Era sempre aos domingos, quando ela me levava para o sofá, falando pausadamente, mostrando a voz e as cores do mundo. O sons dos pássaros que não conhecia, mares cuja força nunca vi, picos de montanhas e neve. Gente diferente, falando outras línguas que ela também falava. Às vezes, por imposição ou respeito a outras crenças, aparecia usando véu, escondendo o rosto, mas sempre livre me chamando para a beleza da vida, para um mundo fantástico onde eu, ela e você tivemos o privilégio de nascer.
De certa forma a invejava, por correr o mundo, conhecer línguas e ter aquela cor, uma mistura da noite com o céu estrelado.
Depois, ela desapareceu. Fiquei muitas semanas sem vê-la. O sofá desbotou com meu suor, mas imaginava que ela reapareceria no Fantástico e mostraria o quanto esse mundo é espetacular, belo. Bastar querer olhá-lo, um tempo para fitar o céu, as coisas ao redor - pessoas, árvores, animais, fenômenos da natureza, o mar, o rio, a fonte, as montanhas, as serras. Olhar as pessoas nos olhos como um espelho para ver a nós mesmos.
Mas hoje veio a notícia de que ela não voltará mais. De que foi embora. Outros a substituirão, mas sua voz, sua visão de mundo, sua maneira simples e inteligente de mostrar a vida, a natureza, a liberdade, é só dela.
Sua imagem negra, superior, desafiadora, inteligente, orgulhosa de sua cor fica como exemplo de quem venceu pelo talento, pela inteligência, pela humildade.
Não que não tenha enfrentado desafios, preconceitos. Mas nada segura ou detém quem nasceu para ser uma estrela.
Gloria, você tinha que ser Maria. Pena que nunca a tenha conhecido pessoalmente. Mas senti, como os mais próximos de você, uma grande tristeza pela sua partida. Você entrava em minha casa sem pedir licença, me levava para o sofá apenas com sua voz e exibia para mim o Planeta em que nasci e que não conhecia. Viajei o mundo com você…
Saudades…
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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