SÃO PAULO — O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou nesta sexta-feira a Justiça Eleitoral que absolveu o presidente Michel Temer, voltou a defender a ideia de convocação de eleições antecipadas e disse a empresários e profissionais do setor de saúde, que ouviram sua palestra num hotel de luxo em São Paulo, que eles devem estar preparados para enfrentar o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas.
Segundo FH, o Brasil está “vivendo um colapso do modelo da Constituinte de 1988”. O ex-presidente elogiou ainda o papel dos militares na crise, que respeitam as leis. O tucano elogiou o fato de as Forças Armadas estarem “fora do jogo”.
— Ainda bem que estão, porque se estivessem teria alguém com espada na mão e o povo aplaudindo — disse.
Questionado sobre possíveis saídas para a crise, Fernando Henrique abordou a situação jurídica do ex-presidente Lula. Para FH, pode ser possível que o enfrentamento com o petista ocorra nas urnas.
— O Lula está por conta da Jusitça, não sei o que a Justiça vai fazer. Mas suponhamos que a Justiça diga que o Lula não fez nada: ele é candidato, é o único candidato possível (do PT). Só resta vencer na urna. Ou então dar golpe, mas como eu sou contra golpe, só resta é vencer na urna — afirmou.
Na análise do tucano, a situação eleitoral de Lula se deteriorou após as denúncias que o petista sofreu na Operação Lava-Jato. Para FH, Lula é o único candidato possível que o PT pode apresentar e, mesmo que seja inocentado ou se torne inelegível por uma condenação em segunda instância, não teria mais condição de vencer uma eleição.
— Quando venceu, o Lula penetrou na classe média e no dinheiro. O dinheiro volta, a classe média não. Acho difícil que o Lula consiga recuperar o que perdeu na classe média. Eu não acho que o Lula seja não-derrotável. Perdeu em São Paulo agora, perdeu extensamente — disse.
Depois de falar longamente sobre a crise política no mundo e direcioná-la ao Brasil, falando o quanto o presidente “deve falar ao Congresso, à nação e saber de lidar com a burocracia, a máquina do Estado e as instituições brasileiras”, FH disse que existe a possibilidade de Michel Temer não terminar o mandato e sugeriu que Temer convocasse as principais forças políticas do país e se dispor a deixar o governo antes de 2018, com a realização de eleições diretas. O tucano classificou a situação de Temer de gravíssima e inédita, devido à provável denúncia que deve ser apresentada pelo Procurador-Geral da República Rodrigo Janot.
— Se por um lado isso é sinal de que as instituições estão independentes, por outro lado, é gravíssimo —disse FH, depois de criticar a decisão que inocentou a chapa Dilma-Temer no TSE: — O TSE surpreendentemente disse que não houve abuso de poder econômico depois de ter mostrado todos e usou como argumento que como um colegiado de sete pessoas vai derrubar um presidente que está lá pelo voto de milhões — disse.
Na palestra, o ex-presidente falou ainda sobre a corrupção no Brasil, que segundo ele se organizou e passou a ser base de sustentação do poder; “o sistema está corrompido” porque não são as empresas que mantêm o partido, mas o “próprio governo”.
A classe média , segumdo ele, está indignada, mas “em casa”. Segundo ele, a falta de mobilização se dá ao fato de que nenhuma sociedade moderna “se mobiliza o tempo todo”. As vezes, sgeundo ele, o motivo de mobilização é lateral, como o aumento do preço dos ônibus em 2013. A rua, segundo ele, não fica permamentemente fervendo o tempo todo.
— Aqui de repente pode acontecer , e o sistema está enfraquecido. Sempre tem um partido que sabe manobrar a máquina pública e que chegar ao poder nunca foi objetivo do PMDB, que ele chegou a presidência por acidente.
O ex-presidente falou sobre a necessidade da reforma política, ao falar da crise do modelo elaborado na Constituição de 1988.
— Nós tivemos uma fragmentação partidária enorme, a sociedade está fragmentada também, só que não há correlação entre a fragmentação dos partidos e da sociedade. Isso coloca uma questão de governabilidade enorme. E como se compõe uma maioria? Caso a caso. Não existe mais uma coerência programática que mantenha as pessoas unidas — declarou, falando das tradições patrimonialistas e corporativas que deixou os partidos como “sindicatos”.

