Início Espaço Crítico Lenda médica verdadeira
Espaço Crítico

Lenda médica verdadeira

Espaço Crítico
Por Flávio Lauria
26/05/2026 17h10 — em Espaço Crítico

As lendas sempre existiram ao longo das civilizações humanas. São narrativas de caráter maravilhoso, centralizadas em torno de heróis ou figuras populares, ampliadas pela imaginação de seus criadores. Aqueles que as conceberam permanecem no anonimato e seus nomes ficam para sempre no esquecimento. Quantas produções de arte se enquadram neste grupo? Até mesmo obras-primas da música clássica. A mitologia grega é constituída dum agrupamento de lendas que traçam um rico e fascinante painel desse genial povo da antiguidade, refletindo seu modo de pensar e agir.

De outras feitas, elas nada mais espelham que o espírito picaresco, crítico, gozador de quem as elabora. A lenda que se segue mostra apenas esse sentimento do autor desconhecido que, na sua veia humorística, deixa fluir uma realidade próxima e que tem ultimamente ocupado as manchetes dos jornais, ou seja, os dramas e vicissitudes enfrentados pelos profissionais da área de saúde em sua faina de cada dia. O médico tem em suas mãos o dom mais precioso de todos: a própria vida. Tenta conquistá-la com todas as suas forças, no combate muitas das vezes desigual de vencer a morte. As armas de que dispõe são falíveis e a vitória nem sempre é conquistada. Quando presta serviço às instituições públicas, sua atividade é mais desgastante, tendo em vista as precárias condições estruturais e aos baixos salários que lhe são oferecidos em se comparando com outras profissões de menos responsabilidade e que requerem uma carga bem mais reduzida de preparo em termos de tempo e estudo. O médico tem ainda um complicador: trabalha com o imponderável: o ser humano.

Há bilhões de criaturas pensantes e cada uma delas guarda sua individualidade, reagindo diferentemente aos estímulos e agressões. Ele passa anos fazendo tudo certinho, salvando vidas, minorando sofrimentos – ninguém nota, ninguém vê. Elogios só de raro e nem os busca. Quando por acaso ocorre o imprevisto, o mundo desaba-lhe às costas. Uma avalanche de críticas e condenações. Os advogados de porta de hospital, bocas às escâncaras, qual chacais esfomeados, aguardam o momento do bote. Processos. Descrédito. Deixemos de lado essas considerações mais pesadas. Longe de mim denegrir outros profissionais que também carregam suas pesadas cruzes nesse cruel mundo competitivo de configuração capitalista. Passemos às amenidades. Conta-se que quando Deus liberou o conhecimento para que os homens se tornassem médicos, assumiu uma atitude elitista ao exigir que o saber ficasse restrito a um pequeno e selecionado grupo onde todos se julgavam onipotentes. Aconteceu que havia neste restrito grupo alguém que traísse as determinações divinas.

Deus, zangado com o comportamento traiçoeiro, decidiu estabelecer regras punitivas que deveriam ser seguidas:

1º) não terás vida pessoal, familiar ou sentimental, 2º) não verás teu filho crescer, 3º) não terás feriado, fim de semana ou qualquer outro tipo de folga, 4º) se fores privilegiado, terás gastrite, se fores como os demais, terás úlcera, 5º) a pressa será teu único amigo e como penitência tuas refeições serão fugacíssimas, nas mesas dos hospitais ou self-services da vizinhança, 6º) teus cabelos ficarão brancos antes do tempo, isso se não ficares de todo careca, 7º) colocarão em dúvida tua sanidade mental antes que completes 6 anos de formado, 8º) a máquina de café será tua companheira inseparável e a cafeína perderá seu efeito, 9º) o trabalho será teu assunto preferido ou talvez o único, 10) dormir será considerado período de folga, logo, não dormirás, 11) se por ventura adormeceres, será de olhos abertos e terás pesadelos com teus pacientes, 12º) exibirás olheiras como troféu de guerra, 13º) e, o que é pior: inexplicavelmente gostarás de tudo isso. Como gostam, Geraldo Catunda, Taíssa Jezini, Pedro Elias (in memoriam), Raysa Wanzeller, Paulo Montenegro, Louise Alves, Antônio Sanches e tantos outros que fazem da medicina um sacerdócio.

Espaço Crítico

Espaço Crítico

Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Escola Superior Batista do Amazonas(1982) e especialização em Intensivo de Pós Graduação Em Adm. Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública(1993). Atualmente é PROFESSOR da Escola Superior Batista do Amazonas e professor titular da Faculdade Nilton Lins. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração de Empresas.

Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Siga-nos no

Google News

Receba o Boletim do Dia direto no seu e-mail, todo dia.

Comentários (0)

Deixe seu comentário

Resolva a operação matemática acima
Seja o primeiro a comentar!