LAS VEGAS - talvez seja o mais óbvio símbolo do caso de amor entre os EUA e o mundo do entretenimento. Seus hotéis temáticos, as mansões de astros da música, os cassinos e as luzes coloridas — colocados juntos, eles oferecem a chance de qualquer um sentir-se hipnotizado e, se tiver sorte, até se tornar rico. Agora, no entanto, Vegas está sofrendo uma realidade muito mais dura após a morte de dezenas de pessoas pelas mãos de um assassino em massa. A cidade que se posiciona como capital da diversão agora tem um título muito menos convidativo — o do local em que aconteceu o mais letal ataque a tiros do país.
Imediatamente após a matança, perpetrada por um homem atirando de sua janela sobre a multidão, os pensamentos vão para aqueles que morreram ou foram feridos, além das forças de emergência que enfrentaram a cena de terror. Como, devemos nos perguntar, pode uma pessoa infligir tanta dor e sofrimento contra inocentes? Donald Trump foi ao Twitter para oferecer suas “calorosas condolências” às vítimas, em uma frase tipicamente esquisita. Ele não fez nenhum comentário imediato sobre a identidade do culpado, disse que se tratava de um homem local com mais de 60 anos, o que não se encaixa na visão de Trump sobre o que é um terrorista. Certamente haverá muito debate sobre a reação de Trump e a terminologia usada para descrever sua tragédia. Inevitável também será a retomada daquele grande passatempo americano: debater se leis sobre armas são culpadas por um massacre.
A regulação sobre armamentos em Nevada é frouxa, até para os padrões americanos. Permissões e licenças são, ao que parece, um obstáculo desnecessário para pessoas que desejam sair pela cidade armadas até os dentes. Leis estaduais não fazem nenhuma referência particular a armamento automático do tipo que parece ter sido usado no incidente, enquanto a legislação federal proíbe a posse de armas automáticas a menos que elas tenham sido registradas antes de 1986.
Os fatos são que homicídios armados nos EUA ocorrem aos milhares todos os anos — 12 mil em 2015, maior que no ano passado. Ao todo, mais de cem mil pessoas serão mortas ou feridas a cada ano como resultado do uso de armas. O presidente Obama reconheceu a atitude ilógica dos EUA com relação às armas. Sua raiva genuína contra cada ataque, no entanto, só se comparava à sua incapacidade em causar mudanças nessa política.
O sucessor de Obama não faz da mesma maneira. Ele declarou, em abril, num discurso na NRA (Associação Nacional do Rifle) que a perseguição aos detentores de armas tinha chegado ao fim. Repetidamente, ele se aproxima daqueles que apoiam o direito de usar armas assinalando o raciocínio de que se mais pessoas estivessem armadas haveria mais “mocinhos” para segurar os “bandidos” quando eles aparecem.
Outro mantra repetido pelos fãs da NRA é o de que não são armas que matam, mas as pessoas, o que é risível. Muitas pessoas não teriam sido mortas em Las Vegas se esse homem tivesse jogado pedras de seu quarto, em vez de disparar balas. Famílias não se perguntariam se seus entes queridos morreram fuzilados. Serviços de emergência não estariam lidando com falta de sangue com o qual tratar os feridos.
Trump irá dizer ao mundo que esse ataque foi obra de um lobo solitário. Talvez descobriremos que o atirador tinha acesso a uma arma ilegal. Podemos também descobrir que ele teve motivações ideológicas. Trump, no entanto, achará desculpas para desviar-se de atribuir responsabilidade à emenda constitucional que garante o uso de armas. A verdade que Trump não vai encarar é a de que a relação americana com armas de fogo só está piorando pelo simples motivo de que ele, apaziguador do lobby dessa indústria, é parte do problema.

