Pelas minhas contas, esta é a sexta vez que escrevo uma versão desta coluna. Escrevi pela primeira vez em 2012, depois que James Holmes matou 12 pessoas em uma sessão de “O Cavaleiro das Trevas ressurge”, em Aurora. Eu havia esquecido, mas a escrevi pela segunda vez em 2015, quando John Russell Houser realizou um ataque semelhante, mas menos letal, em uma exibição de “Trainwreck”, o que terrivelmente mostra quantas vezes tive que evocar esses sentimentos. Escrevi esta coluna pela terceira vez ainda naquele ano, quando terroristas ligados ao Estado Islâmico (EI) mataram 130 pessoas, 89 em um show na casa de shows Bataclan, em Paris. Com desgosto e desespero, escrevi, mas não publiquei, outro lamento depois que Omar Mateen matou 49 pessoas na boate Pulse, em Orlando. E escrevi pela quinta vez em maio, depois que um show de Ariana Grande foi atacado no Reino Unido.
Estou enojada porque, mais uma vez, tenho que escrever sobre um ato de assassinato realizado em um evento cultural: desta vez, o tiroteio em massa mais mortal na História americana moderna, em um festival de música country em Las Vegas. Mas não posso parar, porque nunca quero que aceitemos esses tiroteios como rotina. Toda vez que isso acontece, acredito que é vital articular a natureza do crime. Um tiroteio em massa no cinema ou um ataque a bomba em um show não é apenas um delito mortal contra as pessoas mortas e feridas. É uma tentativa de assassinato de nossas experiências culturais coletivas.
Há muitas coisas que tornam esse eventos poderosamente atraentes. As luzes são baixas. A multidão é densa. Ninguém está em busca de problemas. E ao matar uma dezena de pessoas ou 50, você pode deixar inúmeros outros com medo. Como qualquer um que tenha atingido a maioridade pós-11 de Setembro, estou consciente de quão fácil e barato é sugerir que viver a vida normal é um golpe contra o terrorismo. Quando o presidente George W. Bush disse aos americanos após os atentados de 2001 “eu peço sua confiança na economia americana”, seu pedido foi bizarramente retirado da natureza espetacular dos ataques.
Mas quando as pessoas lançam ataques mortais em espaços culturais, a mensagem é muito mais clara e a resposta também. Se Mateen quis que seu ataque à Pulse fizesse com que pessoas LGBT tivessem medo de celebrar juntas, a única resposta possível é a unidade e a solidariedade. Se o EI ataca Ariana Grande para enviar uma mensagem às mulheres que fazem música e às meninas que a apreciam, é vital garantir que mulheres continuem cantando e que suas jovens fãs continuem a assisti-las em segurança. Qualquer outra reação seria ceder à sua lógica mortal.
Toda violência em massa nos afasta um do outro. A voltada para eventos culturais é particularmente perniciosa, porque visa a espaços onde podemos deixar de lado as identidades que nos dividem numa experiência que nos lembra o que temos em comum. Se renunciarmos a isso, estamos desistindo de algo maior: a ideia de que há coisas que são melhores juntos, em uma multidão. Não importa o quanto eu deseje isso, não espero que essa seja a última vez que escrevo esta coluna. Tudo o que posso esperar é que não nos tornemos mais temerosos e mais sozinhos.

