RIO - Recém-chegado ao Brasil, o novo embaixador israelense, Yossi Shelley, quer focar em laços econômicos com o país. Após a indicação de um ex-líder colono ao cargo gerar vazio diplomático por mais de um ano, o enviado do governo de Benjamin Netanyahu disse ao GLOBO que a confiança do presidente Michel Temer impulsionou o comércio bilateral e garantiu que não existem assentamentos na Cisjordânia, criticando países árabes que, “ao invés de se construírem sozinhos como nós, toda hora estão indo à ONU para dizer que os israelenses agridem, são pessoas ruins e não sabem tratar de direitos humanos”.
Foi triste que a política tenha influenciado na relação entre duas nações democráticas, o que geralmente traz mais tolerância. Israel não enviou um criminoso ou alguém ilegítimo. Às vezes não cabe julgar se ele vive nos assentamentos (como os chamam), porque a legislação internacional estipula que estes não são territórios ocupados, mas sim em disputa. Não pode haver nenhuma discriminação. Mas vamos esquecer isso, foi apenas um episódio. Agora, fui nomeado especialmente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e ele entende que às vezes é necessário trazer alguém diferente. Fui um homem de negócios a vida toda, e isso traz outra visão. Desde que o governo mudou, após o período de Dilma Rousseff, acho que a situação está mais morna. Mas, quando há um vazio, não podemos esperar que tudo mude no segundo dia. É como um casal que briga e não pode fazer as pazes depois de cinco minutos. Leva certo tempo.
É uma boa oportunidade e concentrarei meu trabalho em construir uma boa relação com o governo e o setor empresarial, porque é de onde venho. Estou muito fascinado em aprender sobre programas de agricultura do Brasil, e Israel é um ótimo parceiro para fazer trocas de tecnologia. É uma situação de ganho para os dois lados. Há três anos, não havia visitas de ministros, que agora acontecem, o que é um bom sinal. Estive com os ministros de Defesa, Saúde e Meio Ambiente brasileiros, além de deputados e pastores. Também falei com o presidente Michel Temer, quando houve a Operação Carne Fraca, porque Israel compra muita carne brasileira. E se ele me disse que a carne estava boa, confiei nele, porque o apoio.
O prejuízo foi a ausência de um embaixador neste tempo. Muitos empresários se deparam com problemas práticos e, quando não há uma conexão forte, isso pode atrapalhar. Homens de negócios não gostam de política, mas sim de dinheiro. Se as coisas estão confusas, eles criam dúvidas e recuam, pensando que, se hoje não há embaixador, amanhã os dois países podem encerrar as relações. Os países querem fazer bem às suas populações para apoiá-las e oferecer-lhes uma vida melhor, o que faz da economia hoje o grande foco da diplomacia. Mas não é apenas isso: Israel tem muita informação e tecnologia para ajudar em questões humanitárias e crises, como a da febre amarela no Brasil. Por outro lado, a nível político, claro que estou aqui para proteger os interesses israelenses: contra os países árabes que, ao invés de se construírem sozinhos como nós, toda hora estão indo à ONU para dizer que os israelenses agridem, são pessoas ruins e não sabem tratar de direitos humanos.
Israel não tem assentamentos, mas sim áreas sob situação de guerra. Não reconhecemos a ocupação, como dizem jornalistas e políticos; mas sim a legislação internacional. Claro que queremos resolver o problema. Não precisamos de todas estas terras em disputa e nem que a população fique do nosso lado, se não quiserem. Mesmo hoje, cerca de 1,5 milhão de árabes vivem em Israel e estão muito felizes com isso. Eles têm medo de voltar a regimes como o da Autoridade Palestina e preferem ficar em Israel, porque temos um país democrático, no qual podem votar. Se o Brasil quiser apoiar a criação do Estado Palestino, digo: “OK, por que não?”. (...) Vamos manter os negócios e a missão para melhorar a vida dos nossos povos. É preciso tomar ações para ajudar, e não nos boicotar. E a Autoridade Palestina precisa se sentar conosco, ao invés de bombardear e lançar mísseis. Estamos prontos para a paz, mas o outro lado não quer vir. Você pode perguntar-lhes o porquê, mas eu não sei a resposta.
Se você quer ajudar, todos devem compreender que você não é pré-condicionado ou tem uma agenda secreta. O Brasil precisa ser neutro para contribuir à paz. E o Brasil não é neutro há 15 anos.
Sim. A comunidade de judeus tem grande importância para fazer a relação suave com o governo, assim como os palestinos e árabes que vivem aqui. O interesse comum de fazer negócios juntos e cuidar das famílias é a grande pedra para construir uma boa base. Se tudo está bem, as pessoas têm vergonha de ser ruins.

