WASHINGTON — O tom belicoso contra a Coreia do Norte se manteve no governo de Donald Trump um dia após ele prometer “fogo e fúria” a Pyongyang. Mas ontem, apesar de o Departamento de Estado afirmar que os “EUA agora têm uma única voz” sobre o regime de Kim Jong-un e que a nova estratégia está “funcionando”, fontes do governo informaram, sob sigilo a jornais americanos, que a ameaça de Trump ocorreu de improviso. E aliados, congressistas e especialistas não esconderam o descontentamento com a nova retórica da Casa Branca, que aumenta a tensão sem facilitar um acordo para a região. Em resposta, Kim promete um plano de ataque à ilha americana de Guam ainda este mês.
Pelo Twitter, Trump manteve o tom agressivo: “Minha primeira ordem como presidente foi renovar e modernizar nosso arsenal nuclear. Agora está mais forte e poderoso do que nunca”, escreveu o presidente. “Esperamos nunca precisar usar esse poder, mas nunca haverá um tempo em que nós não seremos a nação mais poderosa do mundo”.
NO CONGRESSO, CRÍTICAS AO BELICISMO
A escalada coincide com novas sanções de US$ 1 bilhão à Coreia do Norte e a informação de que Pyongyang já conseguiu miniaturizar ogivas nucleares para seus mísseis. O secretário de Defesa, Jim Mattis, seguiu a mesma linha:
“A Coreia do Norte deve cessar qualquer consideração de ações que levem ao fim de seu regime e à destruição de seu povo”, afirmou em nota, em resposta à informação de que Kim estaria “pensando seriamente” em atacar o território americano de Guam.
A reação da Coreia do Norte manteve a tensão:
— Um diálogo sensato é impossível com alguém desprovido de raciocínio. Com ele só funciona a força bruta — disse o general Kim Rak-gyom à agência estatal norte-coreana KCNA, referindo-se a Trump.
No mesmo comunicado, o governo de Pyongyang informou que a Coreia do Norte desenvolverá um plano de ataque a Guam até meados de agosto. “Os mísseis Hwasong-12 que serão lançados pelo Exército Popular da Coreia cruzarão o céu sobre as áreas japonesas”, disse a nota.
Mais cedo, Rex Tillerson, secretário de Estado dos EUA, afastou o risco de uma guerra iminente e disse que os americanos poderiam “dormir tranquilamente à noite”.
— O que o presidente está fazendo é enviando uma mensagem firme à Coreia do Norte numa linguagem que Kim Jong-un entenderia, porque ele não parece entender a linguagem diplomática — disse o chefe da diplomacia americana.
Congressistas de ambos os partidos colocaram ressalvas na fala de Trump. O senador republicano Dan Sullivan (Alasca) lembrou que o presidente não pode atacar livremente outro país:
— Uma guerra preventiva contra a Coreia do Norte exigiria a autorização do Congresso, a Constituição é clara — disse.
O republicano John McCain, crítico de Trump, disse que não o levou a sério:
— Os grandes líderes que vi não ameaçam a menos que estejam prontos para agir, e não tenho certeza de que o presidente Trump esteja pronto — criticou.
Democratas disseram que as declarações de Trump afastam um acordo na região, única saída para evitar uma guerra que poderia causar muitos mortos — Seul, com dez milhões de habitantes, fica a apenas 60 quilômetros da fronteira.
“Precisamos ser firmes e decididos com a Coreia do Norte, mas a retórica imprudente não é uma estratégia para manter os EUA seguros”, disse em nota o líder democrata no Senado, Chuck Schumer.
Aliados e parceiros internacionais pediram cautela. Em nota, a secretária de Política Externa da União Europeia afirmou que “uma paz duradoura e a desnuclearização da Península Coreana devem ser alcançadas através de meios pacíficos”. A Chancelaria da China pediu maior ênfase nas negociações internacionais, e o premier australiano, Malcolm Turnbull, disse que responder à Coreia do Norte com “fogo e fúria”, teria “consequências catastróficas” no mundo.
Para Erick Langer, professor da Georgetown University, a nova retórica de Trump mostra forte mudança de postura que pode impactar além dos discursos, lembrando que o presidente ajuda a desacreditar os EUA com mais ameaças, sem ter cumprido as anteriores.
— Trump ameaçou atacar com armas nucleares. Isso é uma mudança de décadas, pois os EUA, a Rússia e a China defendem, no máximo, usá-las em resposta a um ataque. Isso pode causar um novo discurso de ameaças pelo mundo — disse ao GLOBO o professor, afirmando que o tom de Trump parece com o discurso-padrão de Kim.

