MANÁGUA — A violência que atinge a Nicarágua há quase dois meses ganhou força ontem na capital, Manágua, que se viu mergulhada no caos — praticamente paralisada pela falta de transporte e o temor de trabalhadores de ficarem presos no fogo cruzado, com quase 70% das estradas bloqueadas. Enquanto isso, o presidente Daniel Ortega manteve silêncio sobre uma proposta dos bispos para retomar o diálogo, após um fim de semana que terminou com o saldo de pelo menos mais cinco mortes.
Segundo líderes do movimento opositor, o bloqueio nas estradas visa a proteger as cidades de ataques de grupos paramilitares e pressionar o governo para que aceite negociar uma agenda de democratização. Mas a resposta dos funcionários do governo tornou-se violenta no fim de semana: vídeos postados nas redes sociais mostram agentes disparando contra todos e colocando abaixo as barricadas.
Também houve ataques de civis armados contra policiais antidistúrbios. No domingo, os ataques a manifestantes entrincheirados em Sébaco, norte da capital, deixaram um morto. Um dia antes, quatro pessoas morreram em Masaya.
Os protestos começaram em 18 de abril contra uma reforma previdenciária, mas se estenderam a outros setores depois da repressão oficial, que já deixou 139 mortos e mais de mil feridos, segundo o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh).
— Estamos aterrorizados. Depois que retiraram o bloqueio, saquearam as lojas. Não sabemos quando eles vão nos atacar novamente — disse um vizinho à AFP, pedindo anonimato.
Além disso, cerca dos seis mil caminhões de carga vindos de países vizinhos estão bloqueados com mercadoria, o que gera enormes perdas econômicas, segundo os dirigentes de transporte. Ontem, o bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez, pediu à população que não saia às ruas.
— Está muito perigoso pela presença dos grupos de choque. Não arrisquem a vida inutilmente — disse, lembrando que o presidente está usando apenas a linguagem da repressão. — Ele se afasta cada vez mais da realidade e agrava a crise política e a dor do povo, esforçando-se para acabar com o diálogo nacional.
Por sua vez, Ortega, que havia pedido 48 horas para refletir e dar uma resposta aos bispos sobre o pedido de diálogo, não se manifestou durante todo o dia de ontem.
Jornalistas que cobriam os distúrbios também foram atingidos pela violência. O fotógrafo Jorge Cabrera, da agência Reuters, e o cinegrafista Arnaldo Arita, da CNN, tiveram seus equipamentos de trabalho roubados enquanto cobriam os incidentes em Manágua. O repórter Josué Garay, do jornal “La Prensa”, foi agredido por estranhos em sua casa. Ele já havia recebido ameaças, segundo denúncias da ONG local PEN.
A maioria dos bairros atacados margeia a Avenida João Paulo II — que une o Norte e o Sul da capital — uma zona conhecida como “pista da resistência”. Segundo a ex-dirigente guerrilheira e dissidente sandinista, Mónica Baltodano, foi a primeira via a se rebelar contra a ditadura Somoza (1936-79).
Os filhos e netos dos revolucionários lideram a rebelião, especialmente estudantes universitários que adotaram nomes tradicionais dos guerrilheiros que lutaram para derrubar a ditadura. Em Manágua, muitos deixaram suas casas para não colocar suas famílias em risco, e tomaram os campi.

