Início Mundo Oposição quer usar plebiscito para tirar legitimidade de Maduro
Mundo

Oposição quer usar plebiscito para tirar legitimidade de Maduro

BUENOS AIRES — O maior ato de desobediência civil na História da Humanidade. Assim definiram os principais dirigentes da oposição venezuelana a consulta popular que será realizada no próximo domingo sobre a polêmica Constituinte convocada pelo governo do presidente Nicolás Maduro. O plebiscito foi aprovado pela Assembleia Nacional (AN), controlada pelos partidos opositores, e nele serão feitas três perguntas: além de pronunciar-se sobre a Constituinte, os participantes deverão opinar sobre o papel da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) na repressão e a renovação dos poderes públicos, convocação de futuras eleições e criação de um governo de unidade nacional.

A jogada é ousada e tem como claro objetivo conseguir que a participação supere, amplamente, aquela alcançada pela Constituinte, no próximo dia 30, e assim mostrar ao mundo que a maioria dos venezuelanos quer uma mudança de rumo. Num país com cerca de 19,5 milhões de eleitores, a oposição traçou como meta mais ambiciosa contar com a participação de até dez milhões de pessoas.

— Hoje, as pesquisas mostram que 87% dos venezuelanos se opõem à Constituinte, e esta consulta servirá para dimensionar até onde chega a rejeição ao governo Maduro — explicou ao GLOBO Oswaldo Ramírez Colina, diretor da empresa de consultora ORC.

Segundo ele, "o resultado da consulta será vinculante, ou seja, deverá ser cumprido pela AN".

— A expectativa da oposição é de que abra as portas para a formação de um governo legítimo no país e que sirva para denunciar um governo ilegal - afirmou Ramírez Colina.

Dirigentes de peso da Mesa de Unidade Democrática (MUD), como o presidente da AN, Julio Borges, esclareceram que um eventual governo de unidade nacional só seria formado após a realização de eleições gerais.

Sem o reconhecimento do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), dedicado integralmente à preparação da Constituinte, a oposição mergulhou num esforço homérico para que todos os venezuelanos possam participar. Serão instalados 1.933 pontos de votação, com mais de 14 mil mesas espalhadas por todo o país, além de 200 centros no exterior. Para votar, basta apresentar um documento e ter mais de 18 anos.

— Este será o maior ato de desobediência civil da História da Humanidade, e não apenas um exercício simbólico - declarou o vice-presidente da AN, Freddy Guevara, do Vontade Popular (VP).

Na opinião do analista Luis Vicente León, diretor da Datanálisis, porém, a consulta terá importância simbólica e servirá para "continuar mobilizando os seguidores da oposição e mantendo presença forte nas ruas".

— Trata-se de uma estratégia política, que busca um resultado simbólico - apontou León.

Ele considera que tanto a Constituinte como a consulta popular carecem de legitimidade (a proposta de Constituinte deveria ter sido submetida a referendo), mas lembra que "hoje o poder está em mãos de Maduro, que ainda tem oxigênio e usará a Constituinte para fazer o que quiser com o país".

— O cenário é extremamente complexo. A Constituinte é inconstitucional, mas vai acontecer e será utilizada para avançar sobre instituições como o Ministério Público e a AN — frisou o diretor da Datanálisis.

Nesta terça-feira, a procuradora-geral Luisa Ortega Díaz, considerada traidora pelo chavismo desde que se opôs à Constituinte e condenou as violações dos direitos humanos cometidas pelas forças de segurança, assegurou que não deixará o cargo se for destituída pelo Tribunal Supremo de Justiça.

— Vou me manter firme em meu cargo para defender a democracia — declarou Ortega Díaz, que, segundo analistas, será a primeira vítima da Constituinte de Maduro.

A tensão continua crescendo em Caracas. Ontem, a AN cancelou sua sessão ordinária após a Guarda Nacional Bolivariana ter impedido a entrada de jornalistas no plenário.

— Um dos maiores temores atualmente é de que a Constituinte dissolva a AN. O verdadeiro objetivo da iniciativa de Maduro é tornar constitucional o autoritarismo — assegurou Ignácio Ávalos, diretor do Observatório Eleitoral Venezuelano (OEV).

Em tom de brincadeira, Ávalos afirmou que "a Constituinte poderá tudo, até classificar a Venezuela para a próxima Copa do Mundo".

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?