RIO - Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o AquaRio, é a esperança para salvar corais ameaçados em todo o mundo pelos efeitos do aquecimento global. Os recifes correspondem a apenas 0,01% do fundo do mar, mas são responsáveis por 25% da biodiversidade marinha. Além disso, os corais estão mais ameaçados pelas mudanças climáticas do que a Floresta Amazônica, alerta um dos pesquisadores.
Os primeiros resultados do trabalho foram animadores e já repercutem mundialmente. Há menos de um mês, foi iniciada uma nova fase da pesquisa para ratificar os dados iniciais. O estágio atual do experimento está previsto para terminar até 20 de agosto, dia em que um representante da Nasa () deve conhecer o projeto.
— A gente conseguiu diminuir muito os efeitos de branqueamento (processo que mata os corais), com os probióticos (). Reduzimos significativamente as mortes. Houve melhora de 56% na capacidade de a alga do coral realizar a fotossíntese, e isso é uma medida indireta para avaliar a saúde dos corais — afirma Rachel Peixoto, coordenadora do estudo, que só este ano já recebeu mais de 20 convites de todo o mundo para apresentar o trabalho.
O branqueamento vem se intensificado com as mudanças climáticas. O pesquisador Gustavo Duarte, que também participa da experiência, explica que, com o aquecimento da temperatura da água do mar, uma alga que vive nos recifes, responsável por produzir fotossíntese, morre. Sem ela, os corais ficam sem nutrientes, perdem a cor e se tornam mais suscetíveis a doenças, o que leva à morte.
— Os recifes vivem muito perto do limiar térmico que suportam. Eles vivem a 28 graus no verão e, a 31 graus, morrem. Os picos de temperatura do El Niño () começaram a ficar mais dramáticos, e os corais branqueiam — diz Duarte.
A Austrália, muito afetada pela morte de recifes, é uma das 12 nações que acompanham os resultados do estudo aqui no Rio. A estimativa é que o país já tenha perdido um terço d e sua barreira de corais. Para impedir esses danos, pesquisadores brasileiros criaram uma substância batizada pela sigla BMC (). O produto, na verdade, é uma seleção de sete bactérias naturais. Elas foram separadas pelos pesquisadores em supercorais de Maraú, na Bahia. Durante uma visita à região, Gustavo e Rachel perceberam que um único recife tinha corais afetados e outros saudáveis.
— A sensação na Austrália é de desespero, de que não dá mais para esperar. Esses probióticos são para proteger os corais contra os efeitos do aquecimento, mas também temos uma linha para acelerar o crescimento deles, num projeto de refaunação — explica Rachel, acrescentando que Arábia Saudita, Estados Unidos, Alemanha, Portugal e Inglaterra acompanham o estudo.
Na fase atual do projeto, os pesquisadores usam um equipamento — batizado de “máquina do tempo”, porque tem o objetivo de antecipar os resultados — com 40 aquários. Em cada um deles, há um coral. Metade tem água a 26 graus; a outra parte, a 30 graus, quando começam a ocorrer os efeitos do branqueamento. Os aquários foram subdivididos em três grupos: um recebeu o composto criado pelos brasileiros, um segundo tem uma bactéria desenvolvida por um pesquisador saudita, e o terceiro, um placebo.
— O mais interessante disso tudo é que é ciência de verdade, sendo feita no Brasil, no Rio — disse o diretor do AquaRio, Marcelo Szpilman.

