Ao dizer que há uma injustiça, da qual é vítima, Bolsonaro não reconheceu como limpas as eleições (nem seu resultado). Seu discurso de dois minutos embute a mesma suspeita de fraude que ele disseminou ao longo deste ano.
O presidente Jair Bolsonaro quebrou o silêncio, mas sem a intenção de alterar um cenário de instabilidade que seus apoiadores criaram após o resultado das urnas. As manifestações de caminhoneiros continuam, apesar da ação das PMS e da Polícia Rodoviária Federal. E mesmo que as estradas sejam liberadas ainda hoje e os caminhoneiros retomem suas atividades, é inevitável algum grau de desabastecimento, especialmente de combustíveis em todo o País.
Bolsonaro é previsível, mas consegue confundir os dois lados do espectro político. Seus apoiadores, por exemplo, entenderam que seu pronunciamento de dois minutos, no qual defende manifestações pacíficas, foi a senha para que continuassem os protestos. Afinal, entendem que a paralisação dos caminhoneiros é ordeira, apesar do bloqueio das estradas e da interferência no direito de ir e vir de milhares de pessoas que utilizam as rodovias do Brasil.
Já os ministros do STF viram na manifestação do presidente uma advertência para que os bloqueios das estradas encerrassem, garantindo o direito de ir e vir. Bolsonaro, ao contrário, omitiu a palavra bloqueio e sequer falou no movimento dos caminhoneiros. Os ministros do STF “ouviram” o que não foi dito.
Ao dizer que há uma injustiça, da qual é vítima, Bolsonaro não reconheceu como limpas as eleições nem seu resultado. Seu discurso de dois minutos embute a mesma suspeita de fraude que ele disseminou ao longo deste ano.
O fato de estar em curso oficialmente uma transição de governo, não significa a “aceitação”da lisura do pleito por Bolsonaro, que vai continuar confundindo e estimulando, indiretamente ou não, o caos.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

Aviso