A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do chamado marco legal de combate ao crime organizado, reacendeu o debate sobre segurança pública.
A iniciativa, celebrada como avanço civilizatório, surge carregada de uma contradição incontornável: tenta-se aperfeiçoar o aparato repressivo enquanto permanecem intactas as causas estruturais que alimentam a criminalidade — especialmente na Amazônia, onde o crime avançou precisamente porque o Estado recuou.
O que não se diz é que as facções florescem justamente em áreas onde o Estado deixou de existir — nos portos improvisados, nos rios sem fiscalização, nos municípios sem estrada, nas comunidades sem escola, saúde ou alternativa econômica.
O colapso social e logístico que se abateu sobre a região não é consequência das chamadas Organizações Criminosas, mas do abandono estatal que marcou décadas de políticas públicas inacabadas ou inexistentes.
Quando o Estado reage, ou já perdeu a batalha ou chega destituído de políticas e armado de repressão - explode balsas no Madeira, queima embarcações ribeirinhas, desmobiliza meios de subsistência sob o pretexto de combater ilegalidades, e reproduz a lógica de que a violência institucional é a única resposta possível ao colapso civilizatório que o próprio Estado produziu.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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