O país já dispõe de um dos arcabouços mais avançados do mundo e que contempla delação premiada, infiltração policial, ação controlada, confisco alargado, cadeia de custódia, rastreamento financeiro. No papel, nada falta. O que falta é gestão, presença estatal e continuidade de políticas públicas.
As facções se fortalecem justamente onde o Estado nunca se firmou: periferias urbanas, fronteiras amazônicas, regiões abandonadas e muitas sob isolamento geográfico, assim permanecendo em nome de tutela ambiental, a exemplo do Estado do Amazonas.
Assim, permanecem desigualdades profundas, escolas que não atraem o jovem, bem como a ausência de emprego e de outras perspectivas que alimentam o cenário em que o crime oferece o que o Estado não entrega: renda imediata, pertencimento, ainda que ao crime e, por consequência, uma oferta de futuro, ainda que dentro do submundo.
Ao mesmo tempo, o Legislativo, imerso no ciclo das emendas, fiscaliza pouco e legisla muito. Não cobra resultados, não acompanha políticas estruturantes, não enfrenta os gargalos de base. Produz marcos legais como vitrines políticas. No vazio deixado, o STF acaba suprindo omissões — não porque faltem leis, mas porque faltam prioridades.
O país multiplica marcos legais para simular avanço institucional, enquanto falha no básico. E onde o Estado não está, o crime organiza-se melhor do que ele.
Enquanto confundirmos norma com solução e marketing com política, seguiremos combatendo o crime com discursos — e o crime seguirá nos enfrentando com logística, estratégia e presença cotidiana.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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