Em qualquer rua onde se ande em Manaus há uma família pedindo esmola, crianças se prostituindo e mulheres com plaquinhas pregadas nas costas, onde a frase é apenas uma: “Estamos com fome, nos ajude”. É tão frequente esse cenário que nos acostumamos a ele e passamos indiferentes. E nos irritamos quando uma criança se encosta na porta do carro no primeiro sinal, com aqueles olhos fundos e uma angústia tão precoce, sem dizer palavras, esperando um gesto. Ou ainda quando aquele homem maltrapilho, suado, com um pano sujo nas mãos, se põe a limpar o para-brisa de nosso carro em troca de uma moeda que nunca temos. Ou temos, mas não damos, porque ele “foi abusivo” ao fazer um ato para o qual não foi chamado.
Nos julgamos os “fodas”- desculpem o palavrão. Tivemos méritos, estudamos, conseguimos comprar o carro dos nossos sonhos, somos felizes e…. Mas a trajetória de muitos de nós não foi assim. Tivemos sorte, penamos, sofremos como eles, nos humilhamos. Algumas portas foram abertas por pessoas que estavam em posições melhores e nos olharam. Nos viram, não foram indiferentes.
Não. Precisamos fazer alguma coisa, especialmente porque vivemos em um Estado dividido entre extremamente pobres e os ricos, um Estado desigual e injusto.
Vejam só: Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais da metade da população do Amazonas vive em situação de extrema pobreza. Os números - 2,1 milhões de pessoas com renda de até R$ 400 por mês - impressionam, porque, paralelamente, a indústria tem registrado faturamento de mais de R$150 bilhões ano e os projetos aprovados, tanto pelo Conselho da Suframa quanto pelo Codam (Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas), apontam para a geração de um número razoável de empregos - o que na prática é uma ficção, que a imprensa de um modo geral engole.
Mas a riqueza está aí, mal distribuída, aprofundando o fosso entre pobres e ricos.
Na imprensa predomina a versão oficial de que vai tudo bem, nunca contestada pelos jornalistas, a maioria despreparados ou focados apenas nos textos enviados às redações pelas assessorias de imprensa.
Manchetes como: “Codam aprova projetos que vão gerar mil novos postos de trabalho”, “Conselho da Suframa aprova R$ 1,38 bilhão em investimentos de novos projetos. Mais 1.539 empregos” . Tudo mera propaganda.
No mundo real, nada acontece. Nem os projetos são instalados e, por consequência, os empregos ficam na intenção.
Mas há quem ganhe: terrenos concedidos graciosamente para implantações de indústrias que são viáveis apenas no papel e geram outros privilégios, como concessões fiscais e investimentos estatais que se tornam moedas podres, pois nunca são pagos. Dinheiro que sai do bolso do contribuinte para o bolso de “empresários” inescrupulosos. Como não retorna, gera miséria.
Alguém precisa fazer alguma coisa ou um dia esse exército de pobres vai para as ruas e não haverá força repressiva capaz de contê-lo.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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