CARACAS — Vestindo um penacho de plumas e um colar de pedras negras, um governador opositor de origem indígena lançou na terça-feira uma maldição contra as autoridades do governo venezuelano, depois de saber que foi inabilitado por 15 anos de exercer cargos públicos pela Controladoria. Liborio Guarulla, governador do Amazonas — estado majoritariamente silvestre do Sul da Venezuela —, é o segundo dirigente opositor impedido pelo órgão de exercer cargo público, após o líder opositor Henrique Capriles.
— Vou convocar meus ancestrais, meus xamãs, para que a maldição de Dabucurí caia sobre essa gente que tentaram nos fazer mal — disse o governador em uma entrevista coletiva incomum, invocando um poder espiritual. — Asseguro a vocês que eles não morrerão sem tormento, asseguro que antes de morrer começarão a sofrer e que a alma deles vai vagar pelos lugares mais obscuros e insalubres antes de poderem fechar os olhos.
O Dabacurí é um ritual na selva amazônica, praticado para a integração das distintas etnias que habitam a zona. Ele foi indicado como Patrimônio Cultural Imaterial pela Unesco. Segundo repórteres da imprensa local, as vítimas do Dabucurí, quando é convertido em maldição, perdem todas suas riquezas e suas vidas são cheias de dor.
— Assim como eles creem que têm poder material, nós temos um poder espiritual. Nosso povo nos protegeu até o dia de hoje e vai continuar nos protegendo — afirmou Guarulla, acompanhado de outros dirigentes indígenas ornados com plumas e colares.
A Venezuela vive um momento de instabilidade desde que o Tribunal Superior de Justiça (TSJ) assumiu temporariamente as funções do Parlamento, único poder controlado pela oposição. Desde então, uma onda de protestos, iniciados no dia 1º de abril, contra o governo do presidente Nicolás Maduro tomou as ruas do pais. A repressão às manifestações tem provocado a morte de pelo menos uma pessoa por dia. Desde o início das manifestações, em 1º de abril, 39 pessoas morreram, segundo cálculos da procuradoria.
As manifestações exigem a saída de Maduro através de eleições gerais. Os opositores também repudiam a convocação da Assembleia Constituinte popular, por considerar que com isso busca uma Constituição à sua medida para se perpetuar no poder. A tensão aumentou esta semana com o julgamento de civis em tribunais militares, o que a oposição denunciou como uma manobra do governo para criminalizar e desativar os protestos.
As marchas têm como combustível o mal-estar popular gerado pela crise econômica, que atinge o país petroleiro, com uma severa escassez de alimentos e medicamentos e uma inflação que é a mais alta do mundo.

