BUENOS AIRES — A oposição venezuelana não tem dúvidas do que vem pela frente: sublevação civil e, em consequência, uma fase de repressão e perseguição ainda mais feroz. Esse foi o cenário traçado ontem pela dirigente opositora Maria Corina Machado, líder do partido Vente Venezuela, e uma das figuras mais ativas nos protestos contra o governo de Nicolás Maduro. Em entrevista ao GLOBO, Maria Corina disse que chegou a hora “de a comunidade internacional passar da retórica à ação. Ninguém pode reconhecer a Assembleia Constituinte”.
Quais são os riscos para o país a partir de agora?
Hoje (ontem) passamos para outro nível. O regime selou a existência de uma ditadura criminal, que perdeu toda legitimidade. Não se trata apenas de violação dos direitos humanos, de não reconhecimento da Assembleia Nacional. Hoje (ontem) estamos vivendo uma fraude monumental, que está sendo repudiada em todo o país. Os centros de votação ficaram vazios, os jornalistas foram impedidos de cobrir a votação. Vimos a repressão brutal a manifestantes. Está claro que o resultado que for anunciado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) é irrelevante. Aqui o que interessa é que o regime está fraturado e não pode mais ser reconhecido pelo mundo. Nós, como oposição, não abandonaremos as ruas, faremos uma verdadeira rebelião cívica. Os mortos não serão em vão.
Os protestos serão intensificados?
Não saímos às ruas para protestar pela Constituinte, saímos muito antes disso, porque o governo bloqueou todos os caminhos institucionais e o país está morrendo de fome. Tudo ficará pior a partir de agora, estamos vendo a aniquilação total da República. Esse foi o ataque final para esmagar todas as forças que lutam pela liberdade. Mas não vão conseguir, pelo contrário. Foi o pior erro que poderiam ter cometido. Esperamos que depois disso a comunidade internacional passe da retórica à ação.
O que significaria isso, na prática?
Que mais países se unam à política de sanções, que não reconheçam a Assembleia Constituinte.
A oposição está condenada à clandestinidade?
Sabemos que o que vem pela frente é uma repressão ainda mais feroz. Mas não temos opção, vamos continuar na luta. Quando vemos os rapazes com seus escudos de madeira enfrentando as forças de segurança, arriscando suas vidas, não podemos pensar em outra opção. Temos de estar à altura desse momento.
O que acontecerá quando a Constituinte quiser ocupar o palácio legislativo?
Viveremos momentos de enorme tensão. Não se trata de uma guerra civil, mas sim de uma guerra contra os civis. A população está mais unida do que nunca, e o que vem pela frente é uma sublevação popular total e definitiva para defender e salvar a República. A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) tem uma responsabilidade histórica e não pode fugir dela.
Qual será a agenda da oposição a partir de agora, resistir?
Não apenas resistir, vamos avançar. Conseguimos muito em 121 dias de luta. O mundo reagiu, entendeu que este governo deve sair do poder. O chavismo se fraturou, e não somente pela dissidência da Procuradora Geral da República. Existem fraturas dentro da FANB. As ordens de reprimir provam debate interno porque lá também está o povo. Mais de 90% dos venezuelanos querem uma mudança política imediata. Entramos numa etapa final muito perigosa.
A cúpula militar sustenta Maduro…
Você disse bem, a cúpula. Uma cúpula corrupta, vinculada ao narcotráfico, ao sistema financeiro. Uma cúpula comandada por militares cubanos.
Houve negociação entre governo e oposição antes da Constituinte?
Sim, foi confirmado por ambas as partes. Mas é claro que isso só podia fracassar, não era real. Com Zapatero (ex-presidente espanhol) no meio nada pode dar certo. Ele é agente do regime e vem apenas para dar tempo e oxigênio ao governo. Só aceitaremos uma negociação se for para determinar como Maduro sairá do poder.

